Paulo VI
Recompor a amizade?
A vossa missão, a vossa arte consiste em arrancar os tesouros do céu do espírito e revesti-los de palavra, de cores, de formas, de acessibilidade. (...) No exato momento em que tornais acessível e compreensível o mundo do espírito tendes esta função: preservar o aspecto inefável deste mundo, o sentido da sua transcendência, o seu respiro de mistério e, ao mesmo tempo, a necessidade de alcançá-lo com facilidade e com esforço.
A isto os especialistas no assunto chamam de "Einfühlung", sensibilidade, isto é, a capacidade de, pela via do sentimento, perceber aquilo que não se conseguiria compreender e exprimir pelo pensamento. E vós fazeis isto! Vós sois realmente mestres neste modo e nesta capacidade de trazer a beleza ao âmbito dos nossos conhecimentos. E se nos faltasse o vosso auxílio, o nosso ministério tornar-se-ia balbuciante e incerto, teríamos a necessidade de fazer um grande esforço para torná-lo artístico, ou melhor de torná-lo profético. Para alcançar a força da expressão lírica da beleza intuitiva, seria necessário fazer o sacerdócio coincidir com a arte.
É necessário restabelecer a amizade entre a Igreja e os artistas. Na verdade jamais esta amizade esteve rompida..., mas como acontece entre parentes, entre amigos, ela esmoreceu um pouco. Nós não rompemos a amizade, mas a enfraquecemos. Vós me permitis uma palavra franca? Vós nos abandonastes um pouco, vos distanciastes, para beber de outras fontes, na busca embora legítima de expressar outras coisas; mas não mais as nossas. (...)
Mas para ser sincero... nós vos fizemos sofrer um pouco porque, a vós que sois criadores, sempre vivazes, cheios de mil idéias e de mil novidades vos impusemos como primeira norma a imitação. Nós temos este estilo dizíamos a vós é necessário adequar-se a ele; nós temos esta tradição, e é necessário sermos fiéis a ela; nós temos estes mestres, é necessário seguí-los; nós temos estas normas, e não há outra saída. Às vezes vos impusemos uma capa de chumbo nas costas, podemos dizer; perdoai-nos! E depois também nós vos abandonamos. Não vos explicamos as nossas coisas, não vos introduzimos na cela secreta, onde os mistérios de Deus enchem o coração do homem de alegria, de esperança, de felicidade, de entusiasmo. (...).
Nós devemos estimular em vós todas as possibilidades que o Senhor vos doou, e, por conseguinte, no âmbito da funcionalidade e da finalidade, que irmanam a arte ao culto a Deus, nós devemos deixar o canto livre e forte às vossas vozes, de que sois capazes. E vós que sois especialistas em interpretar o que deve ser expresso, vindes buscar em nós a motivação, o tema, e às vezes mais do que o tema, aquele fluido secreto que se chama a inspiração, a graça, o carisma da arte. Se Deus quiser, nós vo-lo daremos. Paulo VI