Michel Pochet

A minha experiência artística

Esta experiência fazia parte de um conjunto com diversas expressões artísticas: músicas e teatro interpretados ao vivo, slydes e vídeos, que constituíam uma única apresentação. Aqui oferecemos apenas alguns trechos do texto apresentado.

Deus Beleza

Nos anos de minha juventude, era opinião comum que Deus e beleza, ou pelo menos arte e religião, eram opostas. Considerava-se a santidade e a vida de artista em contraposição. Para mim pessoalmente eram uma só coisa, ao ponto que a fé em Deus foi envolvida pelo pensamento de a ter confundido com a experiência estética, dando ao Belo, que eu experimentava, o nome de Deus, como na época não se fazia.

Deus, enquanto Beleza, era uma experiência constitutiva da minha identidade. Isto remontava às minhas primeiras recordações de criança e nunca deixou de ser assim. Sentia-me chamado, concomitantemente, ao sacerdócio e à arte.

A sutil atração pelo nada

O período anterior ao meu encontro com Chiara Lubich, foi, por este motivo, um tempo de fortes e profundos conflitos, porque parecia-me impossível concretizar o que sentia e entendia sobre minha identidade.

Num mundo dividido em duas partes: o religioso e o profano não havia lugar para mim. Desejava Ter vivido naquele tempo que tornou possível a arte de um Beato Angélico, ou a fé de um Michelângelo. E vinha-me em mente o absurdo: dar início a uma comunidade de artistas, que não existia, todos dedicados a Deus Beleza.

Porém eu tinha dúvidas. Durante vários anos procurei a prova da existência ou inexistência de Deus. Mas nenhuma argumentação me convencia.

Nessa época eu era estudante em Paris. Tudo em mim transparecia a imagem de um jovem feliz. Eu era feliz. Mas a dúvida instalada em minha mente tornava todas as coisas precárias. Lembro-me quando certa noite, depois da Opera do estrepitoso Don Giovanni, uma crise mais aguda me obrigou a perguntar-me se eu tinha motivos suficientes para viver. E não tinha. Contudo não encontrei nenhuma razão para tirar minha vida. E mais uma vez superei a sutil atração pelo nada.

Em Fiera di Primiero

Em 1959, durante a Mariápolis de Fiera di Primiero, na Itália, de imediato, a intimidade com Deus se distinguiu do gozo estético. Experimentava Deus muito próximo de mim, mas todo gosto estético tinha desaparecido. A natureza, que era estupenda, parecia-me desanimada, semelhante a um cenário de teatro. Deus tinha desaparecido do Belo. Fiquei desconcertado e perturbado.

Porém uma voz interior disse-me: "Deixa de confundir Deus com a beleza, ao ponto de negar a sua existência para que ele venha ao teu encontro através da beleza. Acredite. Esteja atento porque esta pode ser a última ocasião!" De fato, naquela Mariápolis tive a oportunidade de decidir-me de acreditar em Deus e de escolhê-lo, colocando-o no primeiro lugar de minha vida.

Uma nova idéia tomava conta de mim: a tua arte será viver Maria, no sentido de dar Jesus Beleza ao mundo. Este será também o teu sacerdócio, através de tuas obras: dar corpo à beleza de Deus.

Deixando Fiera de Primiero, escrevi uma carta à Chiara onde contei, em detalhes, toda a minha história inclusive estas intuições sobre minha vocação, pela qual pedi seu parecer. Ela me respondeu: "Em relação a tudo o que você me disse na tua carta, espero falar-te mais detalhadamente quando te encontrar, talvez em Paris. Por enquanto continua o caminho iniciado. Tenho certeza que Jesus tem um desígnio sobre ti. Ele se manifestará".

Visão estética do mundo

No inverno de 1961 viajávamos com dois carros para Roma. Ao voltar-me para trás a fim de saudar os ocupantes do segundo carro vejo o sol se pondo. Ainda permanece em meus olhos aquela maravilha. Parecia-me vivo, palpitante, dançando no límpido azul.

O coração batia muito lentamente. Quase não mais respirava. De repente vi sair ondas de uma luz dulcíssima, como um círculo sair do sol e que se alargava em todo o céu, alternando-se em todas as cores do arco-íris.

Pensei no sol como imagem de Cristo, mas faltava a lua como imagem de Maria. No entanto o santuário de Ronchamp desenhava o seu perfil convidativo. As suas formas brancas de mulher forte me envolviam na sua profunda paz. Compreendi que, no símbolo que me foi dado viver, Maria estava presente, não como lua, mas como o céu azul que continha o sol. Foi naquela tarde que, mais que compreender, senti que ela era mãe do Belo Amor, e desejei ser seu filho.

O sol se tinha posto, mas a sua luz dourada fazia com que não houvesse sombra, mas somente luz. Nesta luz, era belo tudo o que meus olhos viam. Os místicos tiveram uma visão religiosa do mundo. Como artista, a minha foi uma visão estética. A partir daquele dia toda beleza é relativizada por esta visão de uma beleza inconfundível; por outro lado, daquele dia em diante, sei encontrar uma semente de beleza em toda parte.

Para mim a arte tornou-se vã e ao mesmo tempo encontra uma forte razão de ser. De fato, se Deus vê o mundo assim, é urgente mostrá-lo como ele o vê. A arte consiste nisto.

O diretor de galeria de arte

Um amigo de família apresentou-me a um grande diretor de galeria de arte de Paris que apreciou os trabalhos deste jovem artista. Muito generoso, explicou-me os requisitos para ser aceito no seu grupo, tendo assim um futuro assegurado. Bastaria escolher uma característica formal, de fácil interesse do mercado, e ir adiante. Mostrou-me os trabalhos de seus protegidos. Cada um já havia desenvolvido um estilo de moda, até de bom gosto para dizer a verdade, mas já fechado em si mesmo, já velho. Eu fugi desapontado.

A arte moderna

A minha formação artística foi substancialmente clássica, por isso mesmo pouco sensível à arte contemporânea. Como tantos eu ficava perplexo diante de uma arte que parecia-me não ter como meta a beleza. Assim eu era tentado a refugiar-me num passado esteticamente seguro, quando ninguém duvidava que a meta da arte fosse a beleza, e que o feio fosse o contrário.

Por definição durante séculos, a arte estava voltada à harmonia, isto é, ao gozo estético. Na música as dissonâncias era banidas. Existiam regras de composição, de combinação das cores. Certas realidades da vida eram consideradas banais, portanto não suficientemente nobres para ser objeto da criação artística.

Os artistas modernos não quiseram colocar-se a serviço do mero prazer. Rejeitaram uma arte de diversão, de consolação, talvez religiosa, alienada da realidade. Inverteram a definição de arte. A meta da arte deixou de ser o belo enquanto agradável. Não existiam mais tabus. Aproximar cores contrastantes e formas desarmônicas, dissonâncias na música, usar uma linguagem popular na literatura, rompendo com todas as convenções, todas as regras de composição, tornou-se um credo estético.

Como tantos, eu estava desapontado com a arte moderna. Tinha dificuldades para conciliar a idéia da beleza como atributo de Deus e uma arte que se apresentava freqüentemente como materialista e que, de propósito, não procurava a harmonia.

Como muitos, eu me surpreendia em perceber que certas obras me tocavam profundamente. Elas revelavam realidades humanas escondidas: dor, horror, desânimo, solidão e todos os males do século. Contudo, antes de comprazer-se com o mal, experimentava compaixão e não agrado. Por outro lado eu não conseguia suportar a literatura edificante, as imagens pias, e toda a produção ‘água de açúcar’ dos assim chamados artistas crentes.

O meu interesse pela arte moderna, por aquele filme desconcertante, por um romance difícil, por aquela pintura grotesca, aquela poesia hermética, seria uma fraqueza ou uma imperfeição? Eu sentia instintivamente que a verdade e o bem estavam do lado deste feio e não daquele belo.

Chiara resolveu este dilema com seu conselho às primeiras focolarinas que começavam a estudar. Disse-lhes de não se deixar intimidar pelas idéias apresentadas nos livros, mas de amar os pensadores como próximos, vendo neles Jesus, talvez abandonado, talvez morto, e de acolher a parte de verdade que cada um podia dar. (...)

Eu fiz assim com os artistas. Aprendi a amá-los. Encontrei desarmonia em suas obras, mas, para além da chaga do feio, também encontrei muita beleza. (...)

O Ressuscitado com os estigmas da Paixão

Há quatro anos, na Mariápolis Farol, na Croácia, o amigo Ivan Bregant queria motivar-me a pintar. Eu não me encontrava nas melhores condições mentais e, por causa da guerra, ali faltava o material. Encontrei um velho lençol, sujo, rasgado e um resto de tintas. Pintei.

Bostian, outro amigo, surpreso pelo meu trabalho, pensou que deveria encontrar, em algum lugar, o outro lençol do mesmo par. O encontrou, limpo, passado, e mo entregou para outro trabalho, mas ele estava velho, furado, esfarrapado e por isso não servia. Fiquei desolado. O que fazer para não desapontar o amigo?

Eu olhava com pesar os restos que se desfiavam, e me recordei de Jesus abandonado. Também ele estava desfigurado. Consummatum est. Esbocei um grande rosto do homem das dores, coroado de espinhos e sangrando. Mas, com surpresa, percebi que não estava pintando o Abandonado, mas o Ressuscitado. Duas imagens opostas unificadas. O Ressuscitado, com os estigmas da paixão. Arrasado, contemplei durante horas a imagem que se compunha com o meu pincel. Em minha mente ficou clara a experiência estética deste século.

A Beleza eterna se fez homem em Jesus. Viveu todas as vicissitudes da vida humana, as mais sublimes como as mais banais, as mais alegres como e as mais dolorosas, até o abandono e a morte. Até a ressurreição.

Na arte contemporânea às vezes Beleza é reduzida a um grito sem resposta, mas assim se expressa no modo mais completo. Nos dá o seu espírito. Parece morta e sepultada sob a pedra do feio. Mas no terceiro dia a tumba está vazia. Alguém nos diz que ressuscitou e que nos espera. Caminha conosco. Nos fala. O coração arde no peito. Se faz tarde. A detemos para a ceia, mas os olhos se abrem no momento que desaparece. A Beleza ressuscitada nunca se impõe: desaparece e se esconde no anonimato do homem comum, no banal, no cotidiano. O sol se põe, dando espaço à lua, Maria, reflexo da Beleza ressuscitada, sempre presente ali onde a Beleza desapareceu, para guiar-nos a ela.

A Beleza está à beira do lago, irreconhecível. Um olho puro a intui e nos abre os olhos. Nos jogamos na água, e a Beleza nutre a nossa mente e os nossos sentidos, com o pão assado sobre a pedra quente.

Mas não aquela beleza toda luminosidade, beleza lisonjeira, sedutora, adocicada até ser enjoativa, perfumada como uma flor venenosa, eventualmente pia como um beato, mas na verdade lucifera porque não encarnada.

A beleza é forte, audaciosa, corajosa, paciente, não se impõe, não se prostitui. Às vezes pode parecer desarmonia, cacofonia, trevas, porque, na sua glória, carrega os estigmas da paixão e da morte.

Arte em comunhão

O carisma da unidade traz como fruto uma nova arte, muito apreciada pelos artistas. Neste sentido certas expressões da conversação de Chiara faziam entrever uma ligação íntima — quase uma identificação — entre beleza e verdade, entre a alma do artista e a alma do santo... que exigiria uma reflexão aprofundada.

Dimensão individual e coletiva da inspiração

O que está em jogo é altíssimo. Não se trata apenas de um trabalho em equipe: toda atividade artística aqui supõe unidade. Para a elaboração de certas obras muitos artistas são envolvidos necessariamente em experiências que se assemelham àquelas mais fortes da vida de unidade.

Creio que ponto de comparação seja a inspiração artística. Se na arte existe algo de pessoal, de solitário, de sagrado, é justamente a inspiração. Quando o artista está inspirado, a sua obra será uma surpresa, antes para ele, que para o público. Ele é o primeiro maravilhado, o primeiro impressionado, pela audácia do que está criando. Ele tem necessidade de coragem, de força, para não limitar-se àquilo que já sabe fazer, que já é reconhecido pelo público como. A sua solidão é extrema. É a inspiração que o impulsiona para a sua evidência. E muitas vezes a escolha é heróica.

Falando da vida espiritual, Chiara nos explicou que Jesus em meio a nós é o alto-falante de Jesus em nós. O artista que goza da presença de Jesus entre aqueles que se amam, prova a amplificação da sua inspiração artística. Sabe distinguir melhor a novidade, encontra a força de acreditar e a coragem de lançar-se a criá-la com a sua arte.

Deus Beleza fala a muitos, mas são poucos os realmente capacitados para traduzir a sua exigente novidade na sua arte a sua exigente novidade. Nem todos somos Picasso ou Stravinskij, Joyce ou Fellini. Se Jesus estiver entre nós, ele o alto-falante de Deus Beleza, certamente também nós, pequenos artistas, teremos a inspiração, a força e a coragem da novidade.

A experiência com Dori

Eu tive a felicidade de ser responsável pelo Movimentos dos Focolares na Bélgica juntamente com Dori, uma das primeiras companheiras de Chiara. Eu era jovem, e encontrava-me no início da minha vida de focolarino, e ela me fazia igual a si, respeitava de modo exemplar toda idéia, que depois talvez pela unidade entre nós se revelava como uma inspiração.

Há alguns dias ela me confidenciou que depois de fortes momentos de unidade, onde tínhamos enfrentado problemáticas da vida do Movimento na Bélgica, certamente não de estética, ela se sentia impulsionada a escrever poesias e imaginava que eu iria pintar. Não tínhamos procurado ter Jesus em nosso meio para pintar ou escrever poesias — teria sido instrumentalizá-lo e tudo teria morrido — mas ele em meio a nós inspirava não somente decisões referentes ao Movimento, mas, porque tínhamos um talento artístico, inspirava Dori à poesia, a mim à pintura.

O Ideal da perfeição

Alguns meses atrás Chiara teve em mente encontrar o mundo da arte. Ela escolheu pessoalmente a data deste congresso, para ela mesma falar de Deus Beleza. Traçou as linhas gerais do programa, escolheu as palestras, e certas contribuições artísticas. Não queria que fosse um congresso sobre a arte, mas um congresso da arte. Isto parecia-me importante.

Hoje ouvimos o quanto Chiara espera dos artistas. Trata-se de concretizar uma terceira fase do Movimento. Imaginem que a primeira vez que Chiara intuiu que haveria uma terceira fase da Obra, foi em 22 de janeiro de 1955. Ela dizia: "Acontecerá uma espécie de Hollywood, que é o mundo, uma espécie de outra cidade que representa o mundo que deve fundir-se com Assis e Paris; e paciência o estudo, que é sempre uma coisa ainda pura, intelectual, bela, feita também por muitos sacerdotes, mas quando emergir o mundo com todos os seus mitos e suas mitologias, com a sua elegância, as suas modas, os seus gostos, a suas ciências, a sua literatura estúpida, etc... todas estas coisas, a arte, as danças! E devemos fazer unidade também com tudo isto! Devemos fazer! Ah, que fusão maravilhosa: Assis, Paris, Hollywood! Certo, assim o ideal da unidade desabrocha com perfeição, aquilo que tanto agrada ao mundo".

A perfeição do nosso Ideal. Chiara nos confia exatamente isto. Nada menos! A sua perfeição, porque é a encarnação, isto é, o maior amor, levado às últimas conseqüências.

Deus é Verdade, é Bem, e é Beleza.

Às vezes, a porta da verdade abre-se dificilmente aos nossos contemporâneos, porque eles têm inato um senso de ceticismo.

Hoje chegar a Deus através da porta do bem é mais difícil que outrora: "Sim, Deus é bom, ele é muito bom para mim. Mas não sou capaz de fazer o bem".

Um Deus perfeito nos desencoraja e um Deus verdadeiro nos ultrapassa. Se entramos pela porta do belo, cai toda resistência. Para a humanidade contemporânea a beleza é porta para Deus.

Mas Deus é um e, quem encontra a beleza, no tempo ou na eternidade, encontrará a verdade e o bem.

Sem os artistas, a porta permanece fechada. Nós somos os profissionais da beleza. Se não fizermos a nossa parte, outros, sem talento artístico, seriam impelidos a improvisar no campo da arte, e criar uma pseudo arte ideal. Que tristeza!

Chiara confia em nós. Queremos desenvolver a arte em comunhão? A comunhão das Artes? A comunhão no trabalho artístico? A unidade entre os artistas?

Perguntei a Chiara qual seria o próximo passo a dar. Ela me disse que, como está nascendo entre nós uma corrente de pensamento político e o Movimento da Unidade, uma corrente de pensamento econômico e a Economia de Comunhão, assim os artistas encontrarão o modo para não permanecer mais isolados, e que, em comunhão, refletirão sobre a estética da Arte.

Quando eu era jovem, sonhava com uma família espiritual de artistas, mas Jesus me chamava a uma família espiritual universal. Hoje esta família inicia uma terceira fase de sua própria história. Ela percebe a vocação específica de dar ao mundo a beleza.

Depois de tantos anos empenhados na busca do bem, depois do verdadeiro, eis-nos todos juntos, artistas e não artistas, chamados a buscar o belo! A fazer beleza. A construir a unidade não somente pela caridade e verdade, mas também através da beleza. Quantos diálogos quase impossíveis no plano da doutrina ou da ética, estão já em ato no plano da beleza. Parece-me o cêntuplo, prometido a quem abandona tudo para seguir Jesus!

Eu acredito nisto. E vocês?